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Amor, Encontro e o Desejo de Continuidade: reflexões a partir do casamento de meu filho

Ter vivido com muita intensidade as emoções do casamento do meu filho me colocou a pensar, a refletir, como mãe, como psicóloga social e psicóloga clínica. Me dispus a pensar sobre o significado de uma celebração de casamento, sobre o sentimento envolvido nesse momento e me fiz perguntas sobre o amor na atualidade e no cotidiano. Afinal, por que um casamento emociona e mobiliza tantos afetos em tempos de descrenças?

Sendo psicóloga e educadora, sei que o amor está longe de ser uma essência pura, ou mesmo algo perfeito ou sequer completo. O amor é um acontecimento processual. Reflito aqui, visitando alguns pensadores que falam sobre o amor, mas o termo continua a ser decifrado e resignificado. Freud nos mostrou que ele é um laço social, uma forma de nos tornarmos sujeitos, mas também um terreno de fantasias e repetições, muitas vezes não amorosas. Lacan, por sua vez, nos lembra que amar é uma experiência de falta, não de completude. E Ana Suy, psicanalista contemporânea, diz que o amor carrega uma promessa não de garantia, mas de desejo. Uma ilusão mobilizadora, que nos move mesmo sem saber ao certo o que estamos buscando. E talvez isso seja o mais importante: o amor não como fim, mas como direção.

Desde a filosofia antiga, o amor ocupa um lugar central no pensamento humano. De Platão a Agostinho, de Simone Weil a Nietzsche, muito se refletiu sobre esse sentimento que, apesar de tão falado, escapa sempre à definição exata. Foram milênios de idealizações, prescrições, mitificações e também rupturas. O amor romântico — que tantos ainda buscam — traz consigo uma promessa de completude, marcada por idealizações e fantasias. Mas é preciso não confundi-lo com o amor como invenção, como construção cotidiana, especialmente quando se trata de um casamento que marca o início de uma nova etapa de vida.

De outra maneira, Jung falava do encontro entre dois inconscientes como algo tão profundo quanto perigoso: projetamos no outro o que ignoramos em nós. Mas, se persistirmos, se suportarmos o desconforto de ver o outro como outro, e não como espelho, então o amor pode se tornar caminho de individuação. Nesse processo, não apenas nos encontramos: nos transformamos.

Uma contribuição fundamental é a do filósofo Byung-Chul Han. Ele nos provoca com sua crítica ao amor no capitalismo tátil: tudo é superficial e rapidamente substituível, é consumo, imagem e efemeridade. Vivemos, segundo ele, numa era de burnout do sentimento, onde a intensidade se confunde com a pressa, e a presença se dilui na conexão. Por isso, um casamento hoje é também um gesto contracultural: ele aposta na continuidade, na resistência contra a obsolescência do vínculo.

Nós somos categorias sociais. Isso significa que não nos formamos apenas individualmente, mas a partir das estruturas sociais, econômicas, geográficas e vínculos que nos atravessam. Amar é também estar no mundo com o outro, ser transformado e transformar. As conexões que criamos — com amigos, famílias, grupos — moldam nossa subjetividade. E celebrar um casamento é um ato de amor coletivo. Estar em coletividade é, também, uma forma de amar.

Talvez, como escreveu Franco Rotelli, a sensatez hoje esteja nos pequenos atos de vida. Em tempos de tanto ruído, crises e incertezas, fazer planos, reunir pessoas queridas, cuidar de detalhes, escolher músicas e flores — são gestos simples e potentes. Celebrar o amor e a união de um filho, nesses tempos, é reafirmar que a vida segue. Que desejamos continuidade, vínculos, afeto, cuidado. Que sonhamos, apesar de tudo.

Nesse contexto, casar-se, amar, desejar continuidade, tornar-se parte de algo maior — de uma história, de um grupo, de uma promessa — é uma recusa à indiferença, chega a ser revolucionário. É insistir na vida, nos atos simples do cotidiano, carregados de planos, sonhos, mesmo quando tudo parece tão líquido e passageiro. Como Rotelli afirmou, o gesto mais terapêutico diante do caos é viver o cotidiano: acordar, brincar, trabalhar, amar, desejar. É fazer da banalidade do dia a dia o solo firme para seguir.

 E talvez seja por isso que os casamentos ainda nos comovem. Porque, neles, vêm à tona tanto os sonhos que tivemos quanto os que ainda ousamos ter. Porque ali, entre risos e lágrimas, o amor parece possível outra vez. O cotidiano se faz vívido e a capacidade de sonhar futuros reacende como forma de resistência a uma vida formatada.

Como escreveu Mia Couto:

“Não somos árvores, mas temos raízes. Raízes que escolhemos. E isso é o amor.”

 

 

 

 

 

 

Esse artigo foi escrito por:

Nanci Gomes

Respostas de 3

  1. Muito bom o seu texto, doutora; A isenção de sentimentos pessoais o tornou mais forte e conciso. Gostei muito das citações sobre o amor. Elas me lembraram mais alguns autores, desde Sócrates e Platão, que diziam ser o amor “uma busca pela beleza, sabedoria e virtude, um impulso para ascender a um estado de conhecimento e compreensão mais elevados” até Zygmunt Bauman em seu “amores líquidos” onde descreve as relações interpessoais na modernidade como laços mais frágeis, efêmeros e com menor compromisso, comparados às relações sólidas do passado. Enfim, como você cita no começo, infinitas são as definições, e, a meu ver, nenhuma delas pode descrever algo tão dialético como o amor. Vou escrever alguma coisa também, certamente num viés mais poético, mas novamente, parabéns pelo texto.

  2. Gostei muito do seu comentário Airton. Te convido a publicar aqui o que escreveu, gostaria de ler.
    Obrigada.

  3. Airton, grata por seu comentário e troca. TE convido a publicar aqui o que voce escreveu, ainda mais se tem um viés poético. Agradeço a generosidade.

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