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A Empatia em declínio, estamos regredindo?

Para começar

Empatia não é apenas se colocar no lugar do outro. É, antes de tudo, uma capacidade de reconhecer que o outro sente, pensa e vive a partir de uma experiência própria — diferente da nossa. Está aí um desafio para nossos tempos: “tentar reconhecer e legitimar o que o outro sente a partir dele”. Trata-se de uma abertura para se indagar sobre o que se passa no mundo interno de alguém, mesmo que isso não seja expresso em palavras.

Muitas vezes, confundimos empatia com simpatia, solidariedade ou compaixão. Mas a empatia é mais sutil. Ela não exige que sintamos o mesmo que o outro sente, mas sim, que estejamos disponíveis a escutar e a considerar outros modos de perceber.

Essa capacidade não é apenas um traço do caráter — é uma conquista evolutiva da espécie humana, profundamente ligada à nossa vida em sociedade. Em termos simples, nosso corpo e nosso cérebro reagem ao outro de forma automática e inconsciente. Muitas das nossas atitudes de cuidado, por exemplo, surgem a partir de algo que se move em nós ao observar o outro. É como se algo dentro de nós dissesse: “eu também poderia estar ali”.

Essa leitura do outro — de seu rosto, de seus gestos, de suas pausas — ativa circuitos em nosso cérebro que nos ajudam a agir com sensibilidade. Levantar para alguém se sentar, ao perceber seu cansaço, pode parecer um pequeno gesto, mas nasce de um processo profundo: um raciocínio afetivo, que une percepção e vínculo.

Mas é preciso dizer: empatia não é algo que nasce pronto. Embora seja uma potencialidade humana, ela precisa ser cultivada, e quando falamos em precisar reforçamos que ela é necessária e fundamental na convivência e evolução social. Se nos fechamos diante do pensamento diferente, se perdemos a capacidade de escutar o outro, então algo dessa nossa humanidade comum se fragiliza.

Empatia não significa concordar, nem aceitar tudo. Mas significa reconhecer que há um outro ali, com desejos, medos, limites e histórias. Exercitar a empatia é uma forma de sustentar a convivência, não como quem tolera, mas como quem aposta no laço possível, mesmo nas diferenças.

 

Empatia e o Individualismo: um conflito civilizatório

No funcionamento social marcado pelo individualismo e polarização, discutir a empatia não é apenas uma urgência ética, mas uma necessidade civilizatória. Mais do que uma capacidade inata ou mero sentimento, a empatia pode ser compreendida como uma conquista psíquica e cultural — um desdobramento da subjetividade que implica a superação de estágios primarios da estruturação do sujeito humano.. Dentre outros, a evolução do estágio narcísico.

 

Freud e a Saída do Narcisismo: A Constituição do Sujeito Social

Sigmund Freud, em sua teoria do narcisismo, distingue entre o narcisismo primário — um estágio inicial em que o ego ainda não se diferenciou do mundo externo — e o narcisismo secundário, em que o amor investido no outro é retraído para o próprio ego. Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud afirma: “O Eu ideal é agora substituído pelo ideal do Eu, em que o sujeito se mede pelo que deveria ser.” Esse deslocamento é fundamental para a entrada do sujeito na cultura e no laço social.

Em Psicologia das Massas e Análise do Ego (1921), Freud mostra como o sujeito, ao se identificar com o outro, abre mão de parte de seu narcisismo em nome da convivência. A empatia, nesse contexto, emerge como possibilidade a partir da renúncia parcial do ego onipotente. Trata-se de uma abertura psíquica que permite reconhecer a existência e o sofrimento do outro sem que isso ameace a integridade do eu.

Jung e a Empatia como Integração da Sombra

Carl Gustav Jung oferece outra chave de leitura. Para ele, o processo de individuação — tornar-se si mesmo — exige o reconhecimento da sombra, os aspectos recalcados e projetados da psique. Em Aion (1951), Jung afirma: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta.” A empatia, portanto, é também um despertar: um movimento que parte do enfrentamento dos conteúdos inconscientes e alcança o outro, reconhecendo no outro o que também habita em nós.

A verdadeira empatia, nesse sentido, não é superficial nem performática: é resultado de um trabalho interior que permite acolher a alteridade sem reduzi-la a uma extensão do eu. Para Jung, o outro é sempre um espelho — não para reafirmar nossa imagem, mas para desestabilizá-la e ampliá-la.

A Necessidade de uma Consciência Coletiva

Na Dialética do Esclarecimento (1944), Theodor Adorno e Max Horkheimer analisam como a razão ocidental, ao se tornar instrumental, perdeu sua dimensão crítica e emancipadora. O sujeito moderno, ao se afastar da reflexão e se submeter à lógica da repetição, torna-se presa de uma barbárie travestida de civilização.

A empatia, neste contexto, aparece como uma possibilidade de resistência ética: uma forma de consciência que se volta ao sofrimento do outro e recusa a indiferença. Adorno defende uma “educação após Auschwitz”, capaz de formar sujeitos sensíveis à dor alheia, aptos a recusar a naturalização da violência. Isso exige um sujeito que ultrapasse o ego autocentrado, capaz de ser afetado pelo que é diferente.

 

A Sociedade Narcisista

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em obras como A Agonia do Eros (2012) e No Enxame (2013), aponta que vivemos numa era marcada pela hipervisibilidade, pela positividade compulsiva e pela dissolução da alteridade. “O inferno não são os outros; o inferno é a falta do outro”, afirma Han. Para ele, a empatia foi reduzida a simulacros digitais de afeto, onde não há mais espaço para a escuta, a dor ou a negatividade.

A empatia, nesse modelo, torna-se produto: está nos emojis, nos likes e nas campanhas de marketing, mas ausente da prática relacional cotidiana. A proposta de Han é uma “revolução da escuta” — uma disposição à escuta do outro real, concreto, com sua diferença irredutível. Escutar, nesse sentido, é um ato de resistência contra a lógica narcísica da transparência e da autoafirmação.

O Impacto da Diminuição da Empatia

Retrocesso Social e Isolamento Afetivo

A diminuição da empatia tem efeitos devastadores sobre o tecido social. Relações humanas tornam-se mais frágeis, permeadas por desconfiança, intolerância e indiferença. A incapacidade de reconhecer o outro como legítimo em sua diferença alimenta discursos de ódio, violência simbólica e exclusão.

Efeitos nas Relações Interpessoais

Nas relações interpessoais, a ausência de empatia gera isolamento, incomunicabilidade e ressentimento. Amizades e vínculos afetivos tornam-se descartáveis. A incapacidade de ouvir ou de se deixar afetar pelas dores do outro empobrece os encontros humanos e nos torna cada vez mais indiferentes à vulnerabilidade.

O resultado disso é uma cultura da anulação, da polarização e do julgamento rápido. A empatia, que pressupõe tempo, escuta e complexidade, é trocada por reações impulsivas e opinativas.

A Influência da Tecnologia

A tecnologia, em especial as redes sociais, contribui significativamente para esse retrocesso empático. Plataformas digitais promovem um modelo de relação baseado na autoimagem, na performance e na validação externa. A cada “like”, reforça-se o narcisismo e perde-se o exercício do reconhecimento do outro real.

Segundo Han, em No Enxame, não se trata mais de relação com o outro, mas de “autoexposição”. O outro é convertido em reflexo, em espelho para a própria imagem. Essa dissolução do outro compromete a possibilidade de laço social autêntico e de experiências afetivas profundas.

Além disso, enfraquece-se o pacto civilizatório que nos faz ceder algo de nosso narcisismo em nome da vida em comum. A tecnologia, nesse cenário, contradiz a ideia de neutralidade, ela não é neutra: frequentemente intensifica o narcisismo. Redes sociais promovem a autoexposição constante, o culto à imagem e o narcisismo de massa. A lógica da performance substitui a da presença, e o contato com o outro torna-se superficial.

 

Empatia como Ato Político e Existencial

A empatia, longe de ser uma habilidade leve ou um dom espontâneo, é uma construção complexa e exigente. Supõe a superação do narcisismo infantil, o enfrentamento das sombras internas e a disposição para abdicar do conforto narcísico em nome da convivência. Diante e atravessados pela desumanização crescente, a empatia se apresenta como um gesto radical: político, ético e profundamente humano.

Retomar essa possibilidade é reencontrar aquilo que ainda pode haver de comum entre nós, que inclui e considera a diversidade. Como disse Adorno, “A exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação.” Talvez pudéssemos dizer o mesmo em relação à empatia.

 

Esse artigo foi escrito por:

Nanci Gomes

Uma resposta

  1. Oi Nanci!!!
    Adorei o texto, muito atual, e você abordou vários aspectos do tema que nos faz refletir sobre o que é empatia e como ela permei vários comportamentos nosso desde no nosso íntimo até o social, me levando a pensar e percebe porque hoje se fala tanto em narcisismo, a forma desse mundo atual de viver nos leva a isso, reforçando cada vez mais a individualidade e consequentemente vivemos num mundo menos empático. Pensando assim exercer um ato de empatia é como uma forma de resistência dessa sociedade moderna que estamos construindo.
    E ficou uma questão comigo. Será que sou empática? Como está o meu narcisismo?

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