O amor em tempos de swipe
O gesto aparentemente banal de deslizar o dedo sobre a tela — para a esquerda ou para a direita — tornou-se um dos símbolos mais contundentes da forma como o amor e o desejo são experimentados hoje. O swipe é, ao mesmo tempo, um ato técnico e uma metáfora: uma escolha veloz, descartável, que transforma o encontro amoroso em um mercado de possibilidades sem fim. Mas o que parece liberdade revela, sob outro olhar, uma captura ainda mais sutil do sujeito pela lógica do consumo e da performance.
O amor sob a lógica do desempenho
Em A Agonia de Eros, Byung-Chul Han observa que o outro, em sua radical alteridade, está sendo progressivamente abolido. O sujeito contemporâneo não quer mais ser desafiado, mas confirmado: busca o igual, o idêntico, o que não ameaça. O amor, que deveria abrir um espaço para o risco e para a surpresa, passa a ser administrado por algoritmos que oferecem “afinidades”. O encontro é otimizado, higienizado, tornado funcional.
Nessa mesma linha, Han mostra que vivemos em uma sociedade de positividade, onde fracasso, dor e solidão são tratados como anomalias a serem eliminadas. Mas o amor não existe sem fracasso, sem tropeço, sem encontro com aquilo que não se deixa domesticar. O swipe, nesse sentido, simboliza a tentativa de recusar a negatividade do amor, transformando-o em uma experiência sem falhas, sem restos, sem fissuras.
#ByungChulHan #AgoniaDeEros #SociedadeDoCansaço
A clínica do swipe
Essa lógica aparece de forma pungente nas falas no consultório. Uma paciente me disse:
“Não deu match, eu não pareço interessante…”
A ausência de resposta, que poderia ser interpretada como contingência ou simples acaso, é vivida como falha pessoal, como déficit do próprio ser. A linguagem dos aplicativos internaliza-se na pessoa: ele passa a se ver segundo as métricas de validação que a plataforma impõe.
Outro paciente, ainda adolescente, resume a questão de modo brutal:
“Meu objetivo é ter muitos seguidores, milhares, daí vou saber que sou bom, que sou querido.”
O amor e o reconhecimento, antes buscados no campo do laço simbólico, tornam-se aqui quantificáveis. O desejo é traduzido em números. A dimensão qualitativa da experiência humana é substituída pela métrica: contar curtidas, matches, seguidores.
E ainda outro, tomado pela angústia diante das imagens idealizadas que circulam:
“Todo mundo parece tão feliz, tudo perfeito, dá a impressão que só eu tenho defeitos e solidão… como faço para me olhar e me aceitar?”
Esse testemunho ilustra o efeito devastador do ideal de felicidade performada nas redes: o sujeito não apenas se sente inadequado, mas perde a possibilidade de sustentar sua própria singularidade. O que aparece como defeito é, muitas vezes, aquilo que o constitui em sua diferença — mas a lógica da comparação massiva o transforma em falha.
- #Ansiedade #ComparaçãoSocial #ClínicaDoVazio
A psicanálise e o desejo
Para a psicanálise, o desejo não é equivalente a uma lista de preferências nem a uma soma de escolhas. Lacan insistia: o desejo nasce da falta. O encontro amoroso só se sustenta porque existe algo do outro que nunca será inteiramente apreendido.
No entanto, os aplicativos se estruturam justamente na recusa dessa falta. Ao oferecer um cardápio infinito de possibilidades, criam a ilusão de que sempre haverá “alguém melhor” logo após o próximo swipe. A lógica é compulsiva: a busca incessante por uma completude que nunca virá. E, quanto mais se busca, mais se confirma o vazio.
É por isso que o discurso capitalista parece hoje tão atual: um circuito que produz objetos de consumo sem limite, mas jamais oferece satisfação. O swipe é a encarnação contemporânea desse circuito: somos convocados a desejar mais, mas nunca a desejar de fato.
- #Lacan #Desejo #DiscursoCapitalista
A mercantilização do afeto
A questão não se limita ao amor romântico. O afeto em geral é hoje convertido em mercadoria. Guy Debord já havia diagnosticado, em A Sociedade do Espetáculo, a substituição da experiência pelo consumo de imagens. Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, mostrou como as relações se tornaram frágeis, descartáveis, marcadas pela busca de conexões “sem risco”.
Nos aplicativos, o sujeito se coloca como mercadoria em exposição: fotos cuidadosamente escolhidas, descrições calculadas, frases de efeito. O que está em jogo não é apenas o desejo do outro, mas o olhar do mercado. O “eu” é transformado em perfil vendável. O sujeito se aliena na tentativa de se tornar desejável, mas, nesse movimento, perde a possibilidade de ser verdadeiramente encontrado.
- #AmorLiquido #SociedadeDoEspetáculo #CríticaCultural
O amor como risco
Amar é sempre se expor ao risco: o risco de não ser correspondido, de se decepcionar, de se perder, de se transformar. O swipe, ao contrário, promete a eliminação do risco: um encontro “seguro”, “compatível”, “sob medida”. Mas, sem risco, não há amor.
A experiência amorosa exige uma abertura ao imprevisto, ao que não se controla, ao que escapa à programação. Exige suportar o mal-estar de não ser reconhecido plenamente, de encontrar no outro um ponto de opacidade. O amor só existe porque o outro não é transparente nem totalmente previsível.
- #AmorContemporâneo #Risco #Alteridade
Vamos recuperar o enigma
O desafio do nosso tempo não é renunciar à tecnologia, mas resistir à sua captura totalizante. É possível usar aplicativos, mas é preciso fazê-lo sem esquecer que o amor não é um objeto de consumo.
Recuperar o amor como enigma significa aceitar sua dimensão de falha, de tropeço, de incompletude. Significa permitir-se o encontro com o que não estava previsto, com o que não cabe no algoritmo. O amor não é swipe. O amor é o acontecimento inesperado que interrompe a lógica da repetição e abre espaço para a criação de um laço singular.






