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Momento para avaliar: Quando entender a própria história não é o bastante. Impasses do processo terapêutico: compreender não é elaborar

Algumas reflexões para o fim de um ano — e o início de outro

O fim de um ano costuma ser um tempo particular. Um tempo de balanço, de perguntas silenciosas, de tentativas de dar sentido ao que foi vivido. Mesmo quem não faz listas ou rituais sente, de algum modo, a passagem: o que mudou? o que permaneceu igual? em que ponto estou hoje em relação a mim mesmo?

É também um momento em que muitas pessoas, após anos de psicoterapia ou de trabalho sobre si, percebem algo inquietante: apesar de compreenderem muito bem sua história, seus traumas e as falhas daqueles que as antecederam, a vida parece seguir girando em torno dos mesmos impasses. O discurso está mais elaborado, mais consistente — mas o sofrimento, o ressentimento e a sensação de repetição permanecem.

Talvez essa constatação não indique um fracasso pessoal, mas convide a uma pergunta mais profunda sobre a direção de certos processos terapêuticos: eles estão favorecendo transformação e responsabilidade subjetiva ou apenas ensinando o sujeito a explicar — e a reclamar — melhor da própria vida?

 

 

Num processo libertador é necessário responsabilidade subjetiva e tempo de rever a própria posição

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum ouvir pessoas em processo terapêutico relatarem, com grande clareza discursiva, as falhas de seus pais, as ausências da mãe, a omissão do pai, os traumas da infância. Muitas vezes, essas narrativas são consistentes, coerentes e até sofisticadas. Ainda assim, algo chama a atenção: apesar de anos de terapia, o sofrimento persiste — e, não raro, o ressentimento também.

Talvez não seja casual que esse tipo de reflexão surja com mais força ao final de um ano. É um tempo em que, inevitavelmente, muitas pessoas se perguntam: o que mudou? o que se transformou? em que ponto estou hoje?

Essa constatação não desautoriza a psicoterapia nem invalida a importância de compreender a história pessoal. Ao contrário: convida a uma reflexão mais delicada e necessária sobre o que um processo terapêutico busca, qual é seu horizonte ético e quais efeitos produz no sujeito ao longo do tempo.

Compreender não é o mesmo que elaborar

Desde Sigmund Freud, a clínica nos ensina que recordar fatos, identificar causas e reconstruir narrativas não garante, por si só, transformação psíquica. Saber “de onde vem” o sofrimento não significa, automaticamente, saber o que fazer com ele.

Quando o processo terapêutico permanece excessivamente centrado na explicação causal — sou assim porque minha mãe foi assim, minha vida é travada porque meu pai falhou — corre-se o risco de fixar o sujeito numa posição de efeito permanente do Outro. A história passa a funcionar como destino, e não como material de trabalho psíquico.

A crítica à análise interminável

Jacques Lacan foi particularmente incisivo ao criticar certos rumos da clínica que, ao invés de promover deslocamentos subjetivos, acabavam por sustentar um processo interminável. Não porque o inconsciente seja inesgotável — o que ele de fato é —, mas porque o sujeito não era convocado a responder por sua posição.

Há processos que, sem perceber, ensinam o sujeito a se queixar melhor, a narrar com mais precisão suas feridas, sem que isso implique um ato, uma mudança de posição ou uma responsabilização pela própria forma de se relacionar com a vida.

Nesses casos, o tempo passa, o discurso se aprimora, mas a existência permanece girando em torno dos mesmos impasses.

Psicoterapia e psicanálise: não se trata de oposição, mas de direção

É importante dizer com clareza: há processos psicoterapêuticos extremamente sérios, profundos e transformadores. E há também análises que se perdem em explicações, dependências e idealizações. O problema não está no nome da abordagem, mas na direção do trabalho.

A questão central é:
o processo clínico conduz o sujeito a uma maior autonomia subjetiva ou reforça uma posição de dependência, vitimização e acusação do Outro?

Quando a terapia valida continuamente o sofrimento sem interrogar o lugar que o próprio sujeito ocupa na manutenção de seus padrões de sofrimento, pode produzir efeitos paradoxais: aumento do ressentimento, rigidez moral, dificuldade de laço e, muitas vezes, um fechamento em si mesmo, como forma de defesa.

 

 

A ética da responsabilidade subjetiva

A psicanálise sustenta uma ética exigente. Ela não promete conforto, adaptação ou felicidade. Tampouco nega traumas, violências ou falhas parentais reais. O que ela propõe é outra pergunta, mais difícil e menos sedutora:

O que você faz, hoje, com aquilo que te marcou?

Responsabilizar-se não é culpar-se. É reconhecer que, mesmo tendo sido constituído na relação com o Outro, cada sujeito é chamado a responder por sua posição atual, por suas escolhas, por seus modos repetidos de lidar com o amor, o trabalho, os vínculos e o sofrimento.

Um processo clínico avança quando a pessoa deixa de apoiar sua vida apenas na acusação do Outro e começa a interrogar seu próprio modo de estar no mundo.

O tempo do processo e o risco da estagnação

Falar em tempo de análise ou de terapia ainda causa desconforto. Muitas vezes, por receio de normatizar o que é singular. No entanto, a ausência total de questionamento sobre o tempo também pode encobrir estagnações importantes.

O critério não é cronológico, mas clínico: há deslocamentos? Há atos? Há novas possibilidades de relação? Ou apenas uma narrativa cada vez mais bem construída sobre por que nada muda?

Essa é uma pergunta ética, não técnica — e talvez especialmente pertinente quando um ciclo se encerra e outro se anuncia.

Para concluir

Talvez uma das tarefas mais urgentes da clínica contemporânea seja resgatar a diferença entre explicar a vida e assumir uma posição diante dela. Nem toda terapia produz sujeitos mais livres. Algumas apenas produzem sujeitos mais conscientes de suas feridas — e ainda assim presos a elas.

Sustentar essa crítica não é desqualificar o cuidado clínico, mas levá-lo a sério. Afinal, se um processo terapêutico não abre espaço para responsabilidade, desejo e transformação, corre o risco de se tornar apenas um lugar confortável de permanência — quando poderia ser, justamente, um lugar de passagem.

Esse artigo foi escrito por:

Nanci Gomes

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