O recente caso amplamente divulgado de uma pessoa abandonada por uma amiga durante uma trilha despertou forte comoção social. Para além dos detalhes do ocorrido — que pertencem ao campo jurídico e factual —, o episódio tocou algo mais profundo e universal: a experiência do abandono no momento de maior vulnerabilidade.
Não se trata apenas de um evento extremo. O abandono, do ponto de vista psicológico, não acontece apenas quando alguém vai embora fisicamente. Ele se produz sempre que o outro falha em sustentar um laço justamente quando é mais necessário.
Este texto propõe um olhar clínico e reflexivo sobre o abandono como experiência psíquica, sobre o que ele revela dos vínculos contemporâneos e sobre por que esse tema mobiliza tanto afeto, indignação e angústia.
O abandono como experiência psíquica
Na psicologia e na psicanálise, o abandono não se reduz a um ato objetivo. Ele é vivido como uma experiência subjetiva de desamparo. Freud já apontava que o ser humano nasce em estado de dependência radical: precisamos do outro para sobreviver, para nos organizar emocionalmente e para dar sentido à experiência.
Por isso, o abandono toca uma camada primitiva do psiquismo. Ele reativa vivências arcaicas de desproteção, medo e impotência. Quando alguém nos abandona em um momento crítico — físico ou emocional —, o que se rompe não é apenas a presença do outro, mas a confiança básica no laço.
Contextos em que o abandono pode se manifestar
Essa ruptura pode acontecer em diferentes contextos:
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em relações amorosas,
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em amizades,
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no ambiente de trabalho,
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na família,
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ou em situações-limite, como doenças, crises emocionais ou riscos concretos.
Quando o outro desaparece no limite
O que mais impacta em situações extremas, como a do abandono na trilha, é o fato de que o outro não apenas se afasta, mas o faz no momento em que sua presença era vital.
Do ponto de vista psíquico, isso produz uma vivência de colapso. O sujeito não enfrenta apenas o perigo imediato, mas também a quebra de um pacto implícito: o de que, diante do risco, não se estará só.
Essa quebra ecoa profundamente porque contradiz uma expectativa fundamental dos vínculos humanos: a de que o outro será capaz de se implicar minimamente diante do sofrimento.
Abandono e responsabilidade nos vínculos contemporâneos
Vivemos em uma sociedade marcada pela valorização da autonomia, da performance e da autossuficiência. A dependência passou a ser vista como fraqueza, e o cuidado com o outro, muitas vezes, como excesso de responsabilidade.
Nesse contexto, não é raro que pessoas se afastem diante da dor alheia não por crueldade deliberada, mas por incapacidade psíquica de sustentar o peso do outro. Medo, pânico, imaturidade emocional e dificuldade de lidar com limites podem produzir comportamentos de fuga.
Isso não elimina a gravidade do abandono, mas ajuda a compreendê-lo como sintoma de uma cultura que fragiliza os laços e desloca a responsabilidade sempre para o indivíduo.
Abandono não é só físico
Na clínica psicológica, o abandono aparece de formas mais silenciosas e cotidianas. Ele se manifesta quando:
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alguém minimiza a dor do outro,
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muda de assunto diante de um sofrimento,
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se ausenta emocionalmente,
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invalida sentimentos,
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ou se retira sempre que o vínculo exige implicação.
Muitos pacientes não foram “abandonados” de forma concreta, mas cresceram com cuidadores emocionalmente indisponíveis. O efeito psíquico, nesses casos, pode ser tão intenso quanto o abandono explícito.
Por que esses casos nos afetam tanto?
Casos de abandono extremo geram forte reação social porque funcionam como espelho. Eles nos confrontam com perguntas incômodas:
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Até onde eu conseguiria sustentar o outro?
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Em uma situação-limite, eu ficaria ou iria embora?
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O que faço quando o sofrimento do outro me assusta?
Essas perguntas não têm respostas simples. Elas tocam nossos próprios limites, nossas fantasias de controle e nossas fragilidades.
Entre julgar e compreender: o lugar ético
Do ponto de vista ético e clínico, é importante evitar dois extremos:
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o da banalização do abandono,
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e o da explicação simplista que tudo justifica.
Compreender não é absolver. Olhar para os fatores psíquicos e culturais que produzem o abandono não elimina a responsabilidade, mas amplia a possibilidade de reflexão e transformação.
A psicologia não está a serviço do julgamento moral, mas da escuta e da compreensão do sofrimento humano — inclusive daquele que se expressa de forma falha ou violenta nos vínculos.
O abandono como marca subjetiva
Para quem vive a experiência de ser abandonado, os efeitos podem ser profundos e duradouros:
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medo de confiar,
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hipervigilância nos relacionamentos,
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dificuldade de pedir ajuda,
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sensação de que é preciso “dar conta sozinho”,
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ou repetição de vínculos em que o outro sempre falta.
Essas marcas não se apagam com força de vontade. Elas pedem elaboração, escuta e cuidado.
A importância da escuta clínica
Quando o abandono atravessa a história de alguém, a psicoterapia pode oferecer um espaço fundamental para elaborar essa experiência. Não para apagá-la, mas para reinscrevê-la de outra forma na própria narrativa.
A clínica permite nomear o desamparo, reconhecer a dor e, pouco a pouco, reconstruir a possibilidade de laço — agora com mais consciência dos próprios limites e necessidades.
O abandono denuncia os laços que estamos construindo
O abandono não é apenas um ato individual. Ele revela algo sobre a forma como estamos nos relacionando, cuidando e nos implicando uns com os outros.
Casos extremos escancaram aquilo que, no cotidiano, aparece de maneira silenciosa: a dificuldade contemporânea de sustentar o outro quando o vínculo exige presença real.
Pensar sobre abandono é, portanto, pensar sobre responsabilidade, cuidado e sobre o tipo de laço que queremos construir — com o outro e conosco mesmos.





