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Alegria como resistência: o riso como gesto político em tempos de exaustão

Introdução — a economia afetiva do medo

Há uma atmosfera de tensão que se infiltra no cotidiano antes mesmo que possamos nomeá-la. Ela aparece no modo como o corpo desperta, na pressa que antecede qualquer gesto, na sensação de que estamos sempre um pouco atrasados em relação a algo que nem sabemos exatamente o que é.

Não é apenas excesso de informação.
É uma forma de organização da vida que mantém o sensível em estado permanente de alerta.

Corpos em alerta permanente pensam menos, criam menos, sonham menos.
Corpos exaustos buscam apenas sobreviver.

A aceleração contínua, o sensacionalismo e a lógica da performance produzem uma forma de existência marcada pela contração.

Nesse cenário, a alegria deixa de ser um simples estado emocional para tornar-se um acontecimento ético, clínico e político — não como negação do sofrimento, mas como afirmação de vida em meio a ele.

1. A crítica à positividade obrigatória

A primeira tarefa é diferenciar a alegria de sua caricatura contemporânea.

A sociedade do desempenho, tal como analisada por Byung-Chul Han, transformou a felicidade em um imperativo. É preciso estar bem, produzir, render, performar entusiasmo.

Essa positividade compulsória:

silencia o sofrimento

individualiza questões sociais

transforma o mal-estar em fracasso pessoal

Não há, aí, espaço para a experiência.

A alegria de que falamos não é um mandato superegóico.
Ela não é um dever de felicidade.

Ela é um efeito de circulação da vida.

Na clínica, reconhecemos sua presença quando algo volta a se mover, quando o sujeito respira de outra forma, quando o corpo deixa de estar totalmente capturado pelo ideal normativo.

 

2. Alegria como aumento da potência de existir

Em Baruch Spinoza encontramos uma chave fundamental: a alegria é o afeto que aumenta a potência de agir.

Essa formulação desloca completamente a questão.

A alegria deixa de ser um sentimento moral para tornar-se uma variação de potência.

Sistemas de dominação operam justamente no sentido contrário:

produzem cansaço crônico

estimulam a comparação permanente

fragilizam os vínculos

intensificam o ressentimento

Corpos tristes têm menos mundo.
Corpos alegres ampliam o campo do possível.

Produzir alegria — individual e coletivamente — torna-se, assim, um gesto político, porque amplia a capacidade de agir, de pensar e de criar.

 

3. O riso e a dessacralização do poder

O riso tem uma dimensão subversiva que as estruturas rígidas sempre temeram.

Mikhail Bakhtin mostra que o riso carnavalesco suspende, ainda que provisoriamente, as hierarquias e a seriedade que sustentam o poder.

Rir:

interrompe o discurso único

introduz ar no campo simbólico

devolve o corpo à cena

Em Friedrich Nietzsche, a leveza aparece como potência afirmativa — não como fuga do trágico, mas como capacidade de atravessá-lo criando.

O riso não nega a realidade.
Ele impede que a realidade se torne totalitária.

4. Capitalismo contemporâneo e captura da vida

O capitalismo atual não explora apenas a força de trabalho — ele captura o tempo, a atenção e o desejo.

Franco Berardi descreve a produção de subjetividades ansiosas em um regime de aceleração contínua.

A ansiedade é funcional ao sistema porque:

reduz a capacidade de elaboração

intensifica o consumo

fragiliza o pensamento crítico

A alegria compartilhada produz o movimento inverso.

Ela:

cria laço

produz presença

devolve ao sujeito a experiência do tempo vivido

E onde há experiência não há captura total.

 

5. A micropolítica dos afetos e os territórios existenciais

A resistência não acontece apenas nas grandes rupturas históricas.

Como nos lembra Gilles Deleuze, ela se dá também no plano molecular da existência — nos encontros, nos gestos mínimos, nos afetos que escapam às formas de controle.

A alegria compartilhada cria territórios existenciais.
Ela sustenta o desejo em um mundo que continuamente o esvazia.

Não é uma revolução no sentido clássico.
É uma transformação na textura da vida cotidiana.

 

6. A dimensão clínica da alegria

Na experiência analítica, a alegria não aparece como meta.

Ela surge como efeito de um deslocamento subjetivo.

Ela indica que o sujeito não está totalmente colado:

ao supereu

ao ideal de desempenho

à narrativa de insuficiência

É sinal de circulação pulsional, de presença do corpo, de abertura ao encontro.

Em uma cultura que medicaliza o sofrimento e transforma o mal-estar em falha individual, esses pequenos acontecimentos têm um valor ético fundamental.

Eles reintroduzem a experiência onde havia apenas adaptação.

 

7. Arte, criação e a alegria como elaboração

A arte nos mostra, de forma privilegiada, que a alegria não é ausência de dor.

Em Becos da Memória, Conceição Evaristo apresenta personagens que produzem vida em contextos de extrema violência social.

Na música de Cartola e Martinho da Vila, a dor coletiva transforma-se em criação compartilhada.

Na obra de Yayoi Kusama, a repetição e a cor são formas de produzir consistência psíquica diante do risco de dissolução.

A alegria aparece, nesses casos, como forma estética de elaboração do real.

Considerações finais — a alegria como ética do vivo

Em um mundo que acelera, exaure e captura, a alegria é um gesto de desaceleração da lógica dominante.

Um corpo que ri, dança, cria e encontra o outro não está totalmente submetido.
Não porque enfrente diretamente o sistema — mas porque não se deixa reduzir a ele.

A alegria, quando não é mandato, é um acontecimento do corpo.
E todo acontecimento que escapa à normatização reabre o campo da liberdade.

Ela não elimina o sofrimento.
Mas impede que o sofrimento tenha a última palavra.

Produzir alegria — como experiência compartilhada, como criação, como presença — é ampliar a potência de existir.

E ampliar a potência de existir é, hoje, um ato profundamente político

Esse artigo foi escrito por:

Nanci Gomes

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