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Contradições de nosso tempo – quanto mais rico mais pobre

 

Há algo que me incomoda profundamente quando penso no mundo em que vivemos.

De um lado, uma concentração absurda de riqueza, tecnologia, poder. Pessoas que acumulam bilhões, agora trilhões, e são celebradas como símbolos de inteligência, inovação, futuro.

Do outro lado, o que não desaparece: fome, crianças doentes, populações inteiras vivendo na miséria, sem acesso ao básico. Não é algo distante — é estrutural, persistente, quase naturalizado.

E eu me pergunto: como isso pode coexistir como se fosse normal?

 

 

O que é considerado inteligência?

Vejo muito se falar de “inteligência” associada a quem consegue construir impérios, empresas gigantes, transformar tecnologia em escala global.

Mas isso me parece uma definição muito estreita.

Existe uma inteligência que organiza o mundo, sim. Mas existe outra pergunta, mais silenciosa e mais incômoda: inteligência para quê? e a que custo?

Porque não basta criar, inovar, expandir. É preciso olhar para o efeito disso na vida concreta das pessoas. No corpo. Na sobrevivência. No cotidiano.

 

O sistema e não só a pessoa

Eu não estou falando apenas de indivíduos. Mesmo quando um nome se torna símbolo, o que está em jogo é uma lógica muito maior.

Vivemos num sistema em que:

  • acumular riqueza vira sinal de mérito;
  • crescer sem limite vira virtude;
  • competir vira regra;
  • e o sofrimento coletivo vira algo distante, quase estatístico.

Nesse cenário, é como se a grandeza de alguém fosse medida pela capacidade de expansão — não pela capacidade de preservação, manutenção e cuidado.

 

 

O que me incomoda

Quando vejo figuras extremamente ricas e celebradas, o que me chama atenção não é só o que elas fazem, mas o que isso representa.

Existe uma espécie de império em torno de si mesmo. Uma valorização da ambição como se ela fosse, por si só, uma qualidade moral.

E ao mesmo tempo, uma dificuldade grande de lidar com a alteridade, com o outro, com o limite.

Isso me incomoda em vários níveis:

  • na forma como se comunicam;
  • na forma como lidam com críticas;
  • nas posições públicas que assumem;
  • e na impressão de que poder e sabedoria são a mesma coisa.

Para mim, não são.

 

 

Progresso não é só técnico

O mundo avançou muito em tecnologia, em capacidade de produzir, de conectar, de acelerar.

Mas isso não veio acompanhado de um avanço equivalente na forma de cuidar da vida humana.

Parece que sabemos cada vez mais fazer coisas complexas — e cada vez menos sustentar uma vida coletiva minimamente justa.

Essa é uma contradição difícil de ignorar.

 

A pergunta que fica

No fundo, a questão não é apenas sobre quem tem muito ou pouco.

É sobre o tipo de mundo que consideramos aceitável.

O que significa viver num tempo em que o extraordinário convive com o inaceitável como se fossem apenas lados diferentes da mesma normalidade?

Talvez a pergunta mais importante não seja sobre pessoas específicas, mas sobre a forma como passamos a admirar certas coisas — e deixar outras completamente fora do campo da admiração.

Porque isso diz muito sobre nós.

E sobre o mundo que estamos ajudando a manter.

Mas talvez seja ainda mais inquietante perguntar: o que esse tipo de riqueza diz sobre o mundo que a torna possível? Ou ainda: que tipo de mundo precisa existir para que uma concentração tão extrema de riqueza não apenas aconteça, mas seja legitimada e celebrada?

Porque essa inversão muda o foco. Já não se trata apenas de explicar a riqueza, mas de interrogar o próprio mundo que a produz — suas escolhas, suas prioridades e aquilo que ele considera normal ou aceitável.

E talvez seja justamente aí que a questão se aprofunde: não apenas no que fazemos com o mundo, mas no que o mundo faz de nós.

Mas talvez seja ainda mais inquietante pensar que, além do mundo que estamos ajudando a manter, estamos também formatando os tipos de sujeitos que passam a ser valorizados e admirados. E esses sujeitos, cada vez mais, parecem se afastar daquelas formas de implicação na vida coletiva, no cuidado, na sustentação do comum.

Como se estivéssemos produzindo uma cultura que não apenas tolera a desigualdade, mas que também celebra figuras cuja lógica de ação pouco se conecta com a preservação da vida partilhada. E, nesse sentido, criamos paradoxalmente uma espécie de “ideal de sujeito” que tende mais à expansão de si do que à responsabilidade pelo mundo — uma figura que, em última instância, pode acabar participando da própria erosão do que sustenta a vida coletiva.

Esse artigo foi escrito por:

Nanci Gomes

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