Esta reflexão é dirigida àqueles que, diante dos resultados do recente primeiro turno das eleições no Brasil, sentiram-se em luto, tristes, desanimados, desconcertados e com medo.
Na apuração, à medida que o candidato da extrema-direita se mantinha à frente, um sentimento de indignação tomou conta de muitos eleitores de esquerda. Ouviram-se relatos de choque marcados por frases como “não há explicação racional para isso” ou “como pessoas boas puderam votar nisso?”. O que está em jogo aqui não é um simples engano na interpretação de dados, mas o confronto direto com o inexplicável: o encontro com um desejo do outro que simplesmente não conseguimos compreender, não há palavras a dar contorno.
Quando a Razão Perde o Sentido
Construímos nossa visão de mundo através de histórias, valores e uma certa lógica racional — uma teia de sentidos que nos faz sentir seguros. Quando algo acontece e “não faz sentido”, essa teia se rompe. A perplexidade surge porque o voto do outro revelou uma motivação que não cabe na nossa narrativa idealizada de mundo. O choque é o sobressalto diante de algo que resiste à nossa lógica de “bem e mal” e desorganiza nossa expectativa de um comportamento social previsível.
Essa surpresa ao ver “pessoas tidas como boas” apoiando discursos de discriminação e de ódio remete ao que Sigmund Freud observava sobre como nos organizamos em sociedade. Trata-se da queda da ilusão da bondade natural.
Em suas obras sobre a cultura e a psicologia das massas, Freud demonstra que a vida em sociedade exige a renúncia de impulsos (pulsões) agressivos. Contudo, a destrutividade e a hostilidade não desaparecem do ser humano; elas são apenas reprimidas, recalcadas. Vivíamos na ilusão de um “pacto civilizatório idealizado”, onde pressupúnhamos que o “vizinho do bem” compartilhava dos mesmos valores morais. Ver o “homem de bem” votar em um discurso segregador escancara que a virtude consciente pode conviver lado a lado com o fascínio pela violência.

O Discurso de Ódio como Permissão para Destruir
“Como e por que votaram?” Todo grupo humano carrega uma tendência oculta ao preconceito e à divisão. O discurso de ódio não afasta certos leitores; ao contrário, funciona como uma autorização para libertar um prazer hostil e reprimido que antes precisava ser escondido.
O líder de extrema-direita assume a figura de uma autoridade que valida o preconceito e liberta a massa para expressar sua agressividade sem culpa. Portanto, o voto segregador não é uma “falha de lógica”, mas uma oferta de pertencimento e alívio: ele entrega ao eleitor a sensação de fazer parte de um grupo escolhido e o direito de descarregar a destrutividade sob o pretexto de estar “fazendo justiça”, “purificando a sociedade”.
O estado de choque e desânimo que muitos sentem, portanto, não é apenas uma discordância política. É o trauma de perceber que o convencimento lógico não funciona contra escolhas que nascem da liberação desses impulsos (pulsões) inconscientes.

A Mídia Digital e o Combustível do Pânico
Esse mal-estar psíquico é amplificado pela tecnologia. Informações direcionadas por algoritmos criam “verdades paralelas”, alimentam sentimentos e confinam as pessoas em bolhas e câmaras de eco.
O filósofo Byung-Chul Han alerta sobre como o sistema atual explora nossa energia mental através do excesso de ruído, da perda de sentido e do pânico induzido. Essa “psicopolítica do medo” opera pelo fluxo contínuo de notícias catastróficas nas redes (doomscrolling), alimentado artificialmente para esgotar nossa capacidade de reagir.
Vale nos perguntarmos: quanto do nosso pânico atual pertence à nossa vida real e quanto pertence a esse fluxo incessante de telas e previsões catastróficas? Como o excesso de informação tem funcionado como uma amarra que nos paralisa?

Da Angústia Isolada ao Laço Coletivo
O excesso de notícias assustadoras é uma estratégia para gerar paralisia. Freud lembra que a perda de um projeto político ou de uma expectativa social tende a empurrar o indivíduo para o isolamento, a apatia ou a melancolia.
Quando a dor permanece isolada, ela se torna traumática, mantendo a pessoa presa em um circuito fechado de sofrimento, sem conseguir processar o que sente. A falta de espaço para falar e acolher dá à angústia um peso que paralisa e adoece. Essa falta de espaço não é percebida pela falsa ideia de liberdade para falar nas redes sociais.
No entanto, o ato de nomear esse incômodo e compartilhar a experiência em grupo com sentimentos semelhantes transforma o sofrimento:
- Dá contorno ao caos: ao transformar pânico abstrato em palavras, a dor ganha um limite e forma compreensíveis;
- Insere a pessoa na comunidade: o laço coletivo lembra que ninguém está sozinho, permitindo receber apoio e acolhimento;
- Alivia o peso: dividir a carga com o grupo retira o caráter absoluto do trauma, transformando a energia da angústia em ação, atos e resistência.
A força da coletividade não está em apagar a angústia, mas em dividi-la e dar a ela um novo significado. A humanidade já enfrentou crises, pandemias e governos autoritários ao longo da história; o mundo não acabou, e a vida tem mostrado que encontra-se caminhos para se reconstruir. A angústia vivida no isolamento paralisa; mas a angústia nomeada e compartilhada no coletivo perde sua força destrutiva e tende a se transforma em esperança e ação.


