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A Evolução do Amor: De Mito Ancestral à Afetividade Líquida — Como Amamos Hoje?

O amor sempre foi uma força que move a história humana. Inspirou guerras, obras de arte, rituais religiosos, teorias filosóficas e, mais recentemente, estudos científicos e debates sobre saúde emocional. Porém, embora pareça um sentimento universal e atemporal, a forma como compreendemos o amar mudou ao longo dos séculos — e continua mudando.

Neste artigo, vamos percorrer essa trajetória, mostrar como diferentes épocas deram sentidos distintos ao amor, e refletir sobre o que significa amar hoje, à luz da psicanálise e da filosofia contemporânea, especialmente a crítica de Byung-Chul Han à cultura do desempenho e da “sociedade do cansaço”.

1. Amor na antiguidade: destino, rito e transcendência

As primeiras ideias de amor eram profundamente ligadas ao destino e aos deuses. Na Grécia Antiga, por exemplo, o amor era visto como algo que vinha de fora do indivíduo, como uma flecha de Eros. Amar significava ser arrebatado, tomado por uma força que não se controla. Não era um sentimento íntimo, mas sim um acontecimento.

Para Platão, o amor — eros — era uma força que impulsionava o ser humano em direção ao belo e ao perfeito. Amar era elevar-se, transcender a matéria e buscar algo maior.

Na Antigidade, amar também significava compromisso com a comunidade. O casamento era uma instituição social, não uma escolha emocional. A ideia de “amar alguém para casar” é, historicamente, recente.

2. Idade Média: o amor como virtude e renúncia

Com o avanço do cristianismo, surge a noção de amor como caridade, como entrega. Amar se torna algo moral, um exercício de renúncia e bondade.

Mas é também na Idade Média que nasce o amor cortês: um amor idealizado, inacessível, quase sempre impossível. A figura do cavaleiro que ama a dama inacessível inaugura uma nova forma de desejo — não mais tomado pelos deuses, mas sustentado pela falta. É aqui que vemos as raízes do amor romântico.

3. Século XVIII e XIX: o nascimento do amor romântico

Com o Iluminismo e o Romantismo, o amor se torna individual, emocional e central na vida humana. Pela primeira vez, o casamento passa a estar vinculado à paixão.

O amor romântico exalta:

  • a intensidade emocional,
  • a fusão de almas,
  • a ideia de “alma gêmea”,
  • o sofrimento amoroso como prova de profundidade.

Essa visão influenciou nossas expectativas até hoje: queremos que o amor seja forte, único, arrebatador — e eterno. Mas essa expectativa também cria frustrações, porque nenhum amor se sustenta apenas pela intensidade.

4. Psicanálise: amar é encontrar no outro o que falta em nós

A psicanálise revolucionou o conceito de amor ao mostrar que não amamos apenas o outro… amamos também o que o outro nos desperta.

Freud afirmava que amar é reencontrar, na figura amada, traços de nossos primeiros vínculos — especialmente com os cuidadores da infância. Amar, portanto, é repetir, ressignificar e, também, reparar.

Já Lacan aprofunda essa visão ao afirmar que “amar é dar o que não se tem”. Ou seja, amar é um ato simbólico: oferecemos ao outro algo que desejamos ter em nós mesmos — reconhecimento, afeto, sentido.

Para a psicanálise:

  • Amar envolve falta, e não completude.
  • Desejo e amor convivem, mas não são o mesmo.
  • Todo amor é atravessado pela singularidade de quem ama.

Isso significa que o amor nunca é puramente racional: ele carrega marcas da história emocional de cada pessoa.

5. Amor na modernidade tardia: liquidez, performance e exaustão

Entramos agora na reflexão de Byung-Chul Han, filósofo coreano-alemão que analisa a sociedade contemporânea. Para ele, vivemos em uma época marcada por:

  • excesso de liberdade,
  • hiperindividualismo,
  • culto ao desempenho,
  • relações de consumo,
  • conexões rápidas e descartáveis.

Essa lógica também invade o campo afetivo.

O amor líquido e o amor performativo

Na era das redes sociais, o amor tende a se tornar:

  • negociado como um produto,
  • avaliado por compatibilidades,
  • descartado diante de frustrações mínimas,
  • exposto e medido em postagens.

A afetividade se torna líquida, como diria Bauman, e exausta, como aponta Han. Buscamos relações que “funcionem” como aplicativos: rápidas, eficientes, sem falhas. Mas o amor real é mais próximo do tempo lento, do encontro, das imperfeições, do risco.

O amor contemporâneo sofre por excesso de possibilidades. Quando há sempre “alguém melhor disponível”, a relação perde profundidade, porque não é mais encontro — é escolha de catálogo.

6. Afinal, como amamos hoje?

Hoje, amar é um desafio paradoxal. Estamos mais conectados do que nunca, mas mais solitários também.

O amor contemporâneo é marcado por:

  • medo de vulnerabilidade,
  • dificuldade de sustentar vínculos duradouros,
  • ansiedade diante da escolha,
  • idealização intensa e frustração rápida,
  • busca por validação e não por intimidade.

Mas também há um lado positivo: as relações hoje têm mais espaço para liberdade, autenticidade e construção conjunta. Amar não é mais destino ou dever — é escolha consciente.

7. Caminhos possíveis: o amor como encontro, não como performance

Para a psicanálise e para a filosofia contemporânea, o amor só floresce quando aceitamos:

  • a falta e a imperfeição,
  • o tempo lento da intimidade,
  • a vulnerabilidade como parte do encontro,
  • que amar é mais sobre estar com do que possuir.

Amar na atualidade exige coragem — a coragem de romper com a lógica do desempenho e recuperar o que Han chama de “a arte do vínculo”. O amor não se sustenta na exaustão, mas no cuidado. Não se fortalece na idealização, mas no encontro real.

Conclusão

A história do amor é, em parte, a história da própria humanidade. Saímos do mito, passamos pelo romance e chegamos à era do desempenho — e agora precisamos reinventar o afeto.

Talvez amar hoje signifique recuperar o essencial: a presença verdadeira, o diálogo, a paciência e a construção conjunta. E, como lembraria a psicanálise, compreender que amar nunca será completar-se — mas permitir-se encontrar no outro um espelho, um desafio e um caminho de crescimento.

Esse artigo foi escrito por:

Nanci Gomes

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