Autoestima
O mito de Narciso conta que ele tinha uma beleza extraordinária e se apaixona pela própria imagem que vê refletida na água, e por não conseguir possui-la definha e murcha, e no local nasce uma flor, que chamamos de narciso. O mito de Narciso usa o culto à imagem para se referir à vaidade. Atualmente vivemos num tempo em que a imagem tem um peso imenso, tal qual é abordada no mito de Narciso. Na atualidade, entretanto, o processo em relação à imagem está ainda mais complexo, o reflexo no espelho deixou de ser apenas físico — passou a carregar julgamentos internos, expectativas sociais e a eterna comparação com os ideais vendidos nas redes. Diante disso, é cada vez mais comum que mulheres se perguntem: “Quem sou eu, para além daquilo que os outros veem?”
Essa pergunta está no centro de uma reflexão essencial sobre a autoestima feminina — um tema que atravessa a clínica psicanalítica e a vida cotidiana de milhares de mulheres.

A construção da autoimagem e da autoestima feminina
A autoimagem é o modo como nos enxergamos — e esse olhar é, muitas vezes, fragmentado. Não nasce apenas do que pensamos sobre nós mesmas, mas é moldado desde a infância por olhares, discursos e símbolos. A mídia, os padrões culturais e os papéis que se espera que a mulher desempenhe contribuem para o surgimento de uma imagem interna, que é perseguida por nós.
Na clínica onde atendo mulheres de diversas idades, observo como essas imagens idealizadas podem impactar diretamente a autoestima feminina, criando prisões psíquicas onde o valor pessoal passa a depender de validações externas de forma excessiva. A busca constante por aprovação, elogios ou aceitação social pode gerar frustrações silenciosas e, com o tempo, um aprisionamento nesse lugar, determinado por outros.
Entre o que se espera, o que se sente e o que se fala por nós
Uma mulher pode ser admirada, bem-sucedida e ainda assim carregar um vazio interno. A autoestima feminina, nesse caso, se fragiliza não pela falta de competência, mas pela ausência de conexão autêntica com o que realmente importa para si mesma, com a falta de conexão com outras mulheres, com o não se questionar, o que de fato deseja. Essa pergunta, muitas vezes, só consegue ser feita em processos de psicoterapia e análises pessoais, que consideram processos inconscientes e o atravessamento desse outro da cultura e sociedade, que fala em nós e por nós.
O ideal de perfeição como fonte de sofrimento psíquico
A armadilha do “tem que ser”
Uma das queixas mais frequentes entre minhas pacientes está relacionada ao sentimento de inadequação. Por mais que conquistem, por mais que se dediquem, parece que sempre há uma sensação de “não estar à altura”.
Essa tensão entre o ideal e o real gera sofrimento — um tipo de mal-estar que não se resolve com frases prontas ou fórmulas de empoderamento rápido. O que propomos é um caminho mais profundo e singular, colocar em palavras para reconstruir a autoestima feminina, sem negar as contradições que nos habitam, sem negar que esse sofrimento é comum em grande parte das mulheres.
A comparação silenciosa
Nas redes sociais, é comum que as mulheres se comparem constantemente: corpos, conquistas, relacionamentos, rotinas. Essa comparação alimenta um ideal irreal e reforça a sensação de insuficiência. Pouco se fala, no entanto, do custo psíquico de manter uma autoimagem idealizada e distante da própria vontade, que não se sabe nem qual seja.
O que a clínica da psicoterapia analítica revela sobre a autoestima feminina?
Escutar o desejo singular
Na escuta clínica, abrimos espaço para que cada mulher se reconheça como sujeito de seu próprio desejo. Muitas vezes, a baixa autoestima feminina não nasce da falta de qualidades, mas da distância entre o que se deseja autenticamente e o que se acredita que “deveria” desejar.
A psicanálise nos convida a retomar esse desejo singular, sem fórmulas prontas. O processo de fortalecimento da autoestima passa por autorizar-se a ser imperfeita, a mudar de ideia, a falhar — e ainda assim, continuar merecendo amor, respeito e reconhecimento. Claro, não é um processo de aprendizagem nem é pedagógico, é um caminho particular, nos passos em sua própria historia pessoal atravessada pelo contexto social, geográfico, temporal, politico e cultural que nos constitui.
O corpo como território simbólico
Na clinica, o corpo também fala. Sintomas, bloqueios e angústias podem se manifestar na forma como a mulher se relaciona com sua própria imagem. O que está em jogo não é apenas a estética, mas a maneira como o corpo é vivido: como desejo, como proteção, como embate com a história pessoal e também coletiva.
A relação com o corpo é, portanto, um dos pontos centrais na constituição da autoestima feminina. Quando o corpo deixa de ser um inimigo e passa a ser reconhecido como parte da história subjetiva, abre-se espaço para um vínculo mais amoroso consigo mesma.
Cuidar da psique é cuidar da autoestima feminina
A mulher vive o desafio de ser muitas em uma só. E justamente por isso, mais do que nunca, cuidar da saúde psíquica torna-se essencial. A psicanalise e abordagens que consideram o inconsciente e o atravessamento social e cultural em nós, não oferecem respostas prontas, mas abrem caminhos para a construção de uma narrativa sobre si mesma na conexão com outras mulheres— com clareza das exigências de perfeição que nos são feitas e que podemos escolher não corresponder.
Cuidar da autoestima feminina é cuidar da liberdade de existir com mais leveza, autenticidade e acolhimento. Mulheres que sentem que a autoimagem está em conflito com quem você sejam — ou com quem gostariam de ser —, talvez seja hora de olharem para dentro com mais delicadeza e escuta. Saiba, você não está sozinha nesses questionamentos.





