Série Adolescência
A série Adolescência, da France Télévisions, nos transporta para um território perturbador: um menino de apenas 13 anos assassina uma colega de escola. Sem sinais prévios de psicopatia, sem histórico de violência, sem motivação clara. O gesto choca não apenas por sua brutalidade, mas pelo vazio de sentido que o envolve. E é justamente esse vazio que torna o caso emblemático do que Jonathan Haidt descreve em The Anxious Generation como o resultado de uma geração educada dentro das telas — e fora do mundo.
Haidt defende que estamos diante de um novo tipo de abandono: a hiperconectividade precoce, sem mediação adulta, sem tempo para amadurecimento emocional e relacional. O brincar deu lugar ao rolar de telas. O contato físico foi substituído por curtidas e reações digitais. E o corpo? Tornou-se performance. A série Adolescência mostra com precisão esse colapso simbólico que afeta profundamente a saúde mental de adolescentes.

Quando a realidade perde a linguagem
Na série, o jovem agressor não é retratado como um “monstro”, mas como alguém comum: introspectivo, educado, com boa convivência em casa. Aos poucos, porém, ele mergulha num ambiente digital onde a violência vira entretenimento e o outro, uma figura sem rosto. A fronteira entre realidade e ficção se dissolve. O crime não é um ato racional, mas uma explosão simbólica — uma passagem ao ato, como diria a psicanálise — quando faltam palavras para dar conta do que se sente.
Esse é o ponto mais inquietante: quando a adolescência deixa de ser um tempo de travessia simbólica e se transforma num vazio sem narrativas. Na ausência de escuta, sem espaços seguros de troca, muitos jovens internalizam conflitos que não conseguem elaborar. A série Adolescência denuncia esse esvaziamento e alerta: quando não há linguagem, há ruptura. Quando não há sentido, a violência se apresenta como grito.
A ilusão das explicações fáceis
A recepção da série Adolescência e do livro A Geração Ansiosa evidencia um ponto central: o desejo coletivo de encontrar explicações simples para acontecimentos complexos. É comum ouvirmos frases como “foi culpa dos jogos violentos” ou “ele veio de uma família disfuncional”. Esse tipo de pensamento cumpre uma função psíquica: alivia a angústia e oferece a falsa sensação de controle.
Porém, ao atribuir o problema a causas isoladas, deixamos de observar uma questão estrutural: o impacto das redes sociais, das novas formas de socialização e da ausência de adultos presentes e atentos. A saúde mental de adolescentes não se esgota em diagnósticos ou culpados — ela é atravessada por fatores sociais, tecnológicos, afetivos e culturais, muitos deles ainda em transformação.
Por que os transtornos mentais cresceram após 2010?
O marco da hiperconectividade
Pesquisadores como Jonathan Haidt apontam 2010 como um marco: o ano em que smartphones e redes sociais se tornaram onipresentes na vida dos adolescentes. Desde então, dispararam os casos de ansiedade, depressão, automutilações e isolamento social. Vários fatores explicam esse aumento:
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Mudança no modelo de socialização: crianças passaram a interagir muito mais por telas do que em ambientes reais, enfraquecendo o desenvolvimento emocional.
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Comparação social constante: redes sociais expõem os jovens à necessidade de validação contínua, o que intensifica sentimentos de inadequação, especialmente entre meninas.
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Diminuição do sono e hiperestimulação cognitiva: o uso excessivo de telas prejudica o sono e sobrecarrega o cérebro, alimentando quadros ansiosos.
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Bolha algorítmica: os conteúdos personalizados das redes sociais reforçam crenças e ampliam vulnerabilidades, como mostra a própria série Adolescência, em que o protagonista consome conteúdos cada vez mais violentos sem o conhecimento dos pais.
O que pode ser feito?
Mais do que restringir telas, é preciso reconstruir o mundo fora delas. Haidt propõe medidas como:
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Adiar o acesso a redes sociais;
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Restringir o uso de celulares em escolas;
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Incentivar atividades presenciais e rituais coletivos.
A série Adolescência reforça esse ponto: até pais bem-intencionados podem estar alheios ao que acontece na vida digital dos filhos. É preciso retomar o vínculo, a presença real, o olhar atento.
Conclusão: um chamado à escuta
A tragédia apresentada na série Adolescência não é um caso isolado. Ela representa um sintoma coletivo: o colapso do espaço simbólico da adolescência em meio à cultura da hiperconexão. Cuidar da saúde mental de adolescentes exige muito mais do que filtros parentais — exige escuta, presença, e coragem para enfrentar o desconforto da imprevisibilidade.
A solução não está em demonizar a tecnologia, mas em reconectar os adolescentes ao mundo real. Criar espaços de escuta autêntica, propor limites saudáveis e estar emocionalmente disponível. A adolescência continua sendo um tempo de travessia — e cabe a nós sustentar essa travessia com afeto, linguagem e presença.




