Nos últimos anos, termos como TDAH, autismo leve, alta sensibilidade, ansiedade e déficit de funções executivas circularam intensamente nas redes, nos consultórios e nos ambientes de trabalho. É cada vez mais comum que adultos e jovens se autodiagnostiquem, busquem laudos, medicações ou métodos de adaptação.
Não se trata de negar a existência desses transtornos — que têm bases clínicas, estudos e impactos funcionais reais — mas de questionar como a sociedade moderna produz a necessidade desses diagnósticos e a forma como eles são utilizados.
O que está em jogo não é apenas a ciência; é o mundo em que vivemos.

1. O indivíduo como foco e a culpa deslocada
Desde o surgimento da psiquiatria moderna, o sofrimento tem sido localizado no sujeito: no cérebro, no psiquismo, na biologia. Quando alguém não acompanha o ritmo da escola, da empresa ou do mercado digital, a primeira pergunta é quase sempre: “o que há de errado com ele?”.
Esse deslocamento de análise torna mais fácil responsabilizar o indivíduo e esquecer o contexto social. Como lembra Alain Ehrenberg, em La fatigue d’être soi (1998), e posteriormente na tradução para o inglês, The Weariness of the Self, o mal-estar contemporâneo — ansiedade, depressão e exaustão — não é apenas um problema individual, mas efeito de uma sociedade que exige que cada sujeito seja “empreendedor de si mesmo”, responsável pelo próprio desempenho e pela própria felicidade (Ehrenberg, 1998/2009).
A vantagem para as instituições é clara: se o sujeito não consegue acompanhar, não é a escola que falha, nem o mercado que explora; é o cérebro que está “deficitário”.
2. A economia da atenção e o culto ao desempenho
Vivemos num mundo em que atenção virou moeda. Plataformas, empresas e sistemas educacionais fragmentam o foco e exigem multitarefa constante. Ao mesmo tempo, a vida pessoal também se torna uma arena de desempenho: é preciso dormir bem, comer melhor, estudar, atualizar-se, manter redes sociais ativas. O ócio desaparece, o descanso é cronometrado, a pausa torna-se tarefa.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (publicado originalmente como Müdigkeitsgesellschaft, 2010), descreve como essa sociedade de desempenho cria um sujeito que se autoexplora, em que a exaustão, a distração e a ansiedade não são apenas falhas individuais, mas efeitos da própria estrutura social e cultural (Han, 2010/2014).
Não é de se estranhar que, nesse contexto, sintomas de fadiga cognitiva e distração sejam frequentemente interpretados como déficit individual, ou até como transtornos clínicos.
3. Diagnósticos: explicação ou simplificação?
O diagnóstico pode ser libertador. Nomear o que se sofre dá sentido e abre possibilidades de cuidado. Mas há um risco: transformar o diagnóstico em explicação universal, esquecendo que ele se insere num contexto social e cultural.
Nos anos 1990 e 2000, especialmente nos Estados Unidos, crianças foram medicadas para ficarem “menos inquietas” e “mais obedientes”. A inquietação, natural na infância, passou a ser vista como desvio. A escola ganhou facilidade de manejo, mas a criança perdeu espaço para sua vitalidade.

4. Adultos sob sobrecarga: atenção e exaustão
Muitos adultos vivem sob uma multiplicidade de responsabilidades que se sobrepõem: trabalho intenso, estudo contínuo, cuidado familiar, tarefas domésticas, vida social e autoaperfeiçoamento constante.
Esses sintomas não são necessariamente resultado de TDAH ou outro transtorno cognitivo, mas respostas humanas a um mundo que exige mais do que qualquer pessoa razoavelmente poderia dar conta.
5. Entre negar e patologizar: o meio ético
É preciso recusar dois extremos:
- A negação: “TDAH não existe”, “é preguiça” ou “falta de disciplina”.
- A patologização total: “qualquer falha de atenção é transtorno”.
O ponto ético é perguntar o que está produzindo o sofrimento, sem reduzir o sujeito a um código de diagnóstico.
6. Estratégias que funcionam: cuidar sem patologizar
- Redistribuição de tarefas e responsabilidades.
- Redução da multitarefa.
- Rituais de estudo e descanso.
- Recuperação do ócio.
- Redes de cuidado e apoio social.
- Validação de limites pessoais.

7. Conclusão: o sintoma denuncia o mundo
O sintoma não é apenas o que falta no indivíduo — é também o que sobra no mundo.


